Antropóloga Alba Zaluar analisa o documentário Central

19 de outubro de 2016

Foto de: Sidnei Brzuska

O documentário Central é dos melhores filmes que já vi sobre o sistema prisional no Brasil destinado aos pobres. Os repórteres que o fizeram entraram, com uma impressionante coragem, no presídio Central de Porto Alegre para mostrar o cotidiano de absurdos que os cativos lá vivem, muitos dos quais sem julgamento e pena, todos misturados, embora separados por galerias dirigidas cada uma por distinta facção do crime. Nada se passa dentro do presídio sem negociação com os “administradores” das galerias. As celas, de tão superpopuladas, não são mais fechadas. Os colchões espalham-se pelos corredores. Os presos têm que comprar tudo na cantina que tornou-se um grande negócio para quem a controla. Compra-se a comida do dia a dia na cantina, pois a oferecida pelo sistema estatal é intragável. O esgoto é a ceu aberto. As baratas e os ratos passeiam sem se incomodar com os humanos e suas divisões.

O filme é um soco no estômago para nos lembrar do absurdo que é a prisão no Brasil. Impossível pensar-se em punição que leve um condenado a pensar sobre os erros cometidos, arrepender-se e decidir mudar o rumo da sua vida. As injustiças e as formas de poder autocrático, despótico, o que quiserem chamar, estão em toda parte para que o prisioneiro pense sobre como este país é injusto. Ali, os prisioneiros, também cativos das facções, são obrigados a aceitar as ordens para continuar as atividades criminosas quando vão para fora dos muros, seja em visita, seja em regime semi-aberto, seja em liberdade condicional.

O testemunho de Ailton Batata, que registrei em quase 80 horas de entrevistas gravadas e que está sendo publicado pela editora da FGV, conta a mesta situação de superpopulação, xerife ou o “de frente” mandando na cadeia, a cantina vendendo de tudo sem que se saiba quem a administra. A prisão no Brasil hoje é o maior propagador do crime no país. Sete governos democraticamente eleitos pelo voto direto não conseguiram mudar esse estado de coisas.

Vejam o filme Central para acordar! Leiam o livro do Ailton para entender que as soluções simples são enganação. Este é o problema mais grave e mais paralisado que temos a enfrentar no Brasil.

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